
Avanço alguns passos em direção à luz. Estás lá. Posso ver as tuas pernas pousadas na almofada jogada no chão. Com passos lentos, atravesso o pequeno corredor e paro de frente a ti. Luciana, chamo-te baixinho. Não me atendes. Estás dormindo. Sento-me na poltrona de frente ao teu corpo cansado de me esperar por horas madrugada a dentro. A luz fraca do abajur te cobre com um brilho amarelado, áureo. Luciana, és tão bonita, tão fascinante. Qualquer homem no mundo faria de tudo para um momento contigo, para sentir o teu toque quente no corpo, para se encantar com teu sorriso. E eu, que tenho a ti, não consigo te amar como mereces ser amada, não consigo te adorar como mereces ser adorada. És meu anjo, Luciana, e eu sou o teu demônio.
O que é isso em tuas mãos? Há um livro adormecido em teu peito. Dormiste a ler o quê? Quem te levou ao mundo dos sonhos? Furtivo, retiro a brochura de cima de ti. Teço um sorriso brando. Tu te encantaste, não era para menos, com Neruda. Foste com o chileno para que terras? Era comigo que sonhavas enquanto sibilavas as palavras do poeta? Quisera que sim, porque gosto quando sou eu que te deixo aflita, porque gosto quando te calas e pensas em mim, no meu beijo, no meu corpo, no meu prazer. Eu! Eu! Eu sou o teu sonho, Luciana, e mesmo que não sejas o meu, envaideço por te ter presa a mim, por saber que és indefesa ao que te faço sentir.