
Tudo agora é um mergulho em trevas medonhas. A minha vida entrou na caverna escura e desconhecida. Eu caminho na escuridão atrás de ti, Luciana. Caminho desvairado como um caminhante que erra pelas trilhas ermas do desengano. Eu, que em outros tempos não te via, agora te vejo em todos os lugares que não estás. Isto é o que dizem dar valor quando se perde o que não se devia perder? Isto é descobrir que se ama alguém quando não há mais alguém para amar?
"A gente precisa conversar, Jorge”, tu me disseste, pelo telefone, há alguns dias. Palavras mágicas que expandem o significado e são entendidas com muita facilidade. Não há a necessidade de se ter essa conversa, já sabemos nós o que essas suas palavras querem dizer, não há pessoa no mundo que não saiba que tudo chegou ao fim quando proferimos a palavra “conversa”. Ainda não conversamos, mas já sabemos que eu e ti não somos mais um nós. Cada um agora segue seu caminho sem o outro para guiar pelas tortuosas vias que os passos arrastam. As pegadas se afastam uma das outras, e ninguém carrega o outro no colo. Não são as famosas pegadas na areia, as nossas passadas foram dadas na lama, assim sendo, encobertas pela terra negra e molenga que nos traga a cada pisada. Malditas escolhas as nossas. Maldita sejas tu por me amar; maldito seja eu por não ter dado o amor que eu negava em meu peito. Se um dia eu acreditei que só estava contigo para saciar a minha fome animal, percebo que mais do que a ti, eu me enganava, a viver na mentira que minha mente hipócrita criara.
Sinto a tua falta. É duro assumir que sinto a tua falta, mas — droga — eu sinto a tua falta, Luciana. Gostaria que estivesses aqui comigo, compartilhando da minha comida, protegida pelo meu teto, aquecida pelo meu corpo. Mas não estás, não é mesmo? Percebeste em tempo que o barco fazia água e buscaste o teu salva-vidas a fim de te salvares ilesa da corrente que vinha assustadora como uma onda gigantesca se aproximando da costa. Eu tenho medo. O que será de mim agora que foste embora? Voltarás um dia? Teremos essa conversa ou as entrelinhas já nos disseram tudo o que as palavras negam dizer? Silêncio... só ouço o som do álcool enchendo o copo. Mais uma dose de sonhos antes de o pesadelo voltar para mim e sorrir sarcástico, repleto de ironia.